O Telefone
Mas o dia chegou em que se inventaram os auriculares, e os Gajos começaram a poder falar ao telefone enquanto conduzem. E começaram a surgir telefonemas mais longos, de duração aproximadamente igual à distancia trabalho-casa, dependendo do trânsito e do preço da gasolina, em que os Gajos dissertavam longamente sobre o seu dia, os seus problemas, o sentido da vida, a conjuntura mundial e a melhor maneira de cozinhar bacalhau com natas. Ao princípio as Gajas deliciaram-se com a novidade pois isto dava-lhes a oportunidade de passar mais tempo a falar com o Gajo e sem ter que competir com futebol, o que não é todos os dias que acontece**. Mas chegou eventualmente a altura em que as Gajas, habituadas a estes longos períodos de conversa e partilha, resolveram começar a telefonar noutras alturas do dia para partilhar pequenos nadas que se vão passando na vida da Gaja comum, e quando telefonavam nestas outras alturas do dia, voltavam a deparar-se com o muro de “sim, pois, tens razão, agora tenho q ir, xau, beijo”. Isto poderia passar-se uma vez, e uma Gaja pensar “pois, reuniões”, duas vezes e uma Gaja “é... dor de dentes”, mas as Gajas começaram eventualmente a notar a tendência “quando tenho que passar o tempo tens que estar disponível para as minhas historinhas de merda, mas quando tenho outras coisas a fazer*** não quero nem saber que estejas em trabalho de parto de gémeos meus”. E foi este o dia em que as Gajas começaram a deixar de achar piada aos telefonemas longos com hora marcada e em que os Gajos deram por si a levar com impressoras lazer na cabeça por um motivo completamente novo e insuspeito.
*incapacidade de ver que a louça está por lavar, entre outras.
**de meados de julho a meados de agosto, em anos ímpares.
***ler os titulos dos jornais desportivos, p.e
